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Quando estar conectado não significa estar próximo

  • Foto do escritor: ccdaniel3
    ccdaniel3
  • 9 de jul.
  • 3 min de leitura


Saber do outro não é o mesmo que construir proximidade.


Nunca foi tão fácil acompanhar a vida das pessoas.


Sabemos quando alguém está online. Vemos fotografias, viagens e acontecimentos quase em tempo real. Recebemos mensagens instantaneamente. Em poucos segundos, podemos descobrir onde alguém está ou o que fez durante o dia.


À primeira vista, seria natural imaginar que tudo isso nos tornaria mais próximos.

Mas a experiência cotidiana parece apontar para outra direção.


Muitas pessoas relatam sentir dificuldade para construir relações profundas, mesmo estando constantemente conectadas. Em um mundo onde a comunicação nunca foi tão rápida, o encontro com o outro continua sendo uma experiência complexa.


Como compreender esse paradoxo?


Informação não é intimidade


A tecnologia ampliou o acesso às informações sobre a vida das pessoas.

Hoje sabemos onde alguém esteve, quando visualizou uma mensagem ou quais momentos escolheu compartilhar.


Podemos saber muito sobre alguém sem, necessariamente, construir uma relação de proximidade.


Podemos acompanhar acontecimentos sem saber como eles foram vividos.

Podemos conhecer fatos sem conhecer afetos.


A intimidade não depende da quantidade de informações disponíveis.


Ela se constrói ao longo do tempo, na confiança, na conversa e na possibilidade de compartilhar aquilo que nem sempre é fácil colocar em palavras.


Existe uma diferença importante entre acompanhar a vida de alguém e participar dela.


Essa diferença, embora pareça sutil, transforma completamente a qualidade de uma relação.


O que mostramos também faz parte da relação


Ao mesmo tempo em que passamos a acompanhar mais de perto a vida das outras pessoas, também passamos a compartilhar mais da nossa própria rotina.


Fotografias, opiniões, conquistas, viagens e acontecimentos cotidianos circulam com facilidade.


Cada publicação torna visível uma parte da nossa experiência.


Mas mostrar partes da vida não significa, necessariamente, mostrar aquilo que somos.


Toda forma de comunicação envolve escolhas.


Escolhemos o que contar, o que preservar, o que preferimos silenciar e aquilo que desejamos que o outro veja.


Isso não significa falsidade.


Significa que toda relação é atravessada por modos de apresentação, expectativas e interpretações.


Na psicanálise, interessa menos distinguir o que é verdadeiro ou falso e mais compreender como cada sujeito constrói sua forma de se apresentar ao outro e como se relaciona com o olhar que recebe.


Quando a comunicação ocupa o lugar do encontro


Também nunca foi tão fácil escrever.


Conversas importantes, pedidos de desculpas, declarações de afeto e até términos de relacionamento acontecem, muitas vezes, por mensagens.


Escrever pode ser uma forma legítima de organizar pensamentos e encontrar palavras para experiências difíceis.


Em muitas situações, isso facilita a comunicação.


Mas existe uma diferença entre utilizar a escrita como recurso e substituir por ela o encontro.


Na conversa presencial, a fala acontece diante da presença do outro.


Há pausas, hesitações, interrupções, mudanças de tom e respostas inesperadas.


Existe algo que escapa ao controle.


E é justamente nessa imprevisibilidade que muitas vezes se constrói um diálogo.


A tecnologia fornece dados. Mas não fornece sentido.


Talvez uma das maiores transformações produzidas pela tecnologia tenha ocorrido na experiência do silêncio.


Hoje, frequentemente sabemos que alguém esteve online, visualizou uma mensagem ou publicou uma fotografia.


Temos mais informações do que nunca.


Mas isso não significa que compreendemos o que está acontecendo.


A tecnologia fornece dados.


Mas não fornece sentido.


É justamente nesse espaço que surgem interpretações, expectativas e fantasias.


Um tempo maior para responder pode ser vivido como desinteresse.


Uma mensagem breve pode parecer frieza.


Um silêncio pode ser entendido como rejeição.


Nem sempre essas interpretações correspondem ao que o outro realmente vive.


Ainda assim, produzem efeitos muito concretos em quem as experimenta.


O encontro continua sendo humano


Na psicanálise, o encontro com o outro nunca se reduz à troca de informações.


Toda relação envolve aquilo que conseguimos dizer e também aquilo que escapa às palavras.


Envolve mal-entendidos, expectativas, diferenças e formas singulares de atribuir sentido ao que vivemos.


A tecnologia transformou profundamente a maneira como nos comunicamos.


Facilitou contatos.


Encurtou distâncias.


Ampliou possibilidades de aproximação.


Mas não eliminou aquilo que torna toda relação humana singular.


Continuamos interpretando silêncios.


Continuamos nos surpreendendo com respostas inesperadas.


Continuamos descobrindo que conhecer alguém vai muito além de acompanhar sua rotina.


Talvez uma das ilusões do nosso tempo seja acreditar que diminuir a distância física significa diminuir a distância entre dois sujeitos.


Estar conectado nunca foi garantia de proximidade.


A proximidade continua sendo uma construção. Ela nasce da possibilidade de escutar, de ser afetado pelo outro e de sustentar um encontro que nunca é completamente previsível.



Claudia Cecilia Daniel

Psicóloga e Psicanalista


Atendimento presencial em São José dos Campos – SP

Atendimento online

Claudia Cecilia Daniel
Psicóloga | Psicanalista

CRP 06/43488-4

Atendimento presencial em São José dos Campos e online

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Este site tem caráter informativo e não substitui o atendimento psicológico individualizado.

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