Repetição: por que isso sempre acontece comigo? A lógica da repetição
- ccdaniel3
- há 5 dias
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Há perguntas que surgem em diferentes momentos da vida, mas carregam uma mesma sensação de estranhamento.
"Por que isso sempre acontece comigo?"
Algumas pessoas se fazem essa pergunta após o fim de um relacionamento.
Outras, diante de conflitos recorrentes no trabalho.
Há quem a formule ao perceber que, apesar das mudanças, continua enfrentando dificuldades muito semelhantes às de outros momentos da vida.
À primeira vista, cada situação parece independente.
As pessoas envolvidas são diferentes.
Os contextos mudam.
As circunstâncias não se repetem exatamente da mesma forma.
Ainda assim, algo soa familiar.
Como se uma mesma história insistisse em retornar com personagens diferentes.
Uma pessoa muda de emprego, mas continua sentindo que seu esforço nunca é reconhecido.
Outra encerra uma relação que lhe fazia sofrer e, algum tempo depois, percebe que voltou a ocupar um lugar semelhante em uma nova história.
Há quem prometa a si mesmo que agirá de forma diferente diante de determinada situação e, quando percebe, está novamente preso ao mesmo impasse.
Essas experiências costumam produzir perplexidade.
Afinal, se as circunstâncias mudaram, por que o sofrimento parece tão conhecido?
O que realmente se repete?
É justamente nesse ponto que a questão da repetição se torna importante.
Quando falamos em repetição, não estamos nos referindo à reprodução exata dos acontecimentos.
A vida não funciona dessa maneira.
O que tende a se repetir são certas formas de se posicionar diante das situações, modos particulares de estabelecer vínculos ou maneiras recorrentes de responder aos conflitos e às perdas.
Por isso, a repetição costuma ser mais difícil de perceber do que imaginamos.
Em geral, nossa atenção se dirige ao que aconteceu.
Ao término da relação.
À discussão.
À demissão.
À decepção.
Mas a questão clínica frequentemente se desloca para outro lugar.
O que existe de semelhante entre experiências aparentemente tão diferentes?
O que retorna de uma situação para outra?
O que permanece quando todo o resto mudou?
Por que a repetição não é simplesmente um erro?
Na psicanálise, a repetição não é compreendida como falta de inteligência, fraqueza ou incapacidade de aprender com a experiência.
Muitas vezes, ela opera justamente onde o sujeito acredita estar fazendo algo novo.
É por isso que determinadas situações produzem surpresa.
A pessoa se vê novamente diante de um sofrimento que imaginava ter deixado para trás.
Volta a ocupar posições que a fazem sofrer.
Encontra-se, mais uma vez, diante de conflitos que pareciam resolvidos.
E se pergunta por que a história parece seguir um caminho tão conhecido.
Do ponto de vista psicanalítico, a repetição não acontece porque alguém deseja sofrer.
Ela está relacionada a experiências, marcas e modos de funcionamento que nem sempre são plenamente reconhecidos pelo próprio sujeito.
Aquilo que não encontra espaço para elaboração pode continuar retornando sob diferentes formas.
Não como lembrança consciente, mas como uma maneira de viver determinadas situações.
Por essa razão, romper um padrão raramente depende apenas de força de vontade.
Se fosse assim, muitas repetições desapareceriam depois da primeira frustração.
A questão é mais complexa.
Trata-se de compreender o que sustenta aquele movimento.
O que faz com que ele continue operando.
Qual função ele ocupa na história de cada sujeito.
O trabalho analítico diante da repetição
Na análise, o trabalho não consiste em oferecer estratégias para evitar a repetição.
Consiste em criar condições para que ela possa ser reconhecida.
Quando algo da lógica que organiza essas experiências começa a se tornar visível, o sujeito deixa de estar apenas submetido ao que se repete.
Passa a ter a possibilidade de construir outras respostas.
Aquilo que antes parecia destino pode começar a ser interrogado.
E aquilo que parecia inevitável pode deixar de ocupar o mesmo lugar.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
"Por que isso sempre acontece comigo?"
Mas também:
"O que existe nessa experiência que insiste em retornar?"
É dessa investigação que a análise se ocupa.
Claudia Cecilia Daniel
Psicóloga e Psicanalista
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