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Ninguém se torna quem é sozinho

Foto do escritor: ccdaniel3
ccdaniel3
1 de set.
4 min de leitura

Como as relações participam da construção do sujeito


Antes mesmo de nascer, um bebê já faz parte de muitas conversas.


Hoje, é comum que familiares e amigos se reúnam para descobrir o sexo da criança. Escolhe-se um nome, imagina-se com quem ela irá se parecer, qual será a cor dos olhos, dos cabelos, se herdará o sorriso do pai ou o temperamento da mãe. Há quem sonhe com sua profissão, quem imagine seus gostos, quem diga, ainda durante a gestação, que aquela criança será tranquila, forte, inteligente ou arteira.


Antes mesmo do nascimento, muitas vezes já existem imagens desse bebê. As ultrassonografias permitem acompanhar seus movimentos, observar seu rosto, imaginar semelhanças e até compartilhar essas primeiras imagens com familiares e amigos.


Enquanto ainda é esperada, alguém já prepara o quarto, escolhe o berço, compra as primeiras roupas e organiza um espaço para recebê-la.


Muito antes de dizer sua primeira palavra, esse bebê já é falado.


Já ocupa um lugar na família.


Já desperta expectativas, desejos, medos e fantasias.


Quando finalmente nasce, não encontra apenas pessoas dispostas a cuidar dele.

Encontra uma história que já estava em andamento.


Chegar ao mundo é entrar em uma história


Ao nascer, ninguém encontra um mundo vazio.


Encontramos uma família, uma língua, uma cultura, costumes, crenças, valores e formas muito particulares de compreender a vida.


Aprendemos a falar porque alguém fala conosco.


Aprendemos a nomear as coisas porque alguém lhes deu um nome antes de nós.


Aprendemos o que é permitido, o que é esperado, como demonstrar afeto, como lidar com perdas, frustrações e conquistas na relação com aqueles que nos cercam.


O ser humano não se constitui sozinho.


É na relação com os outros que começa a construir sua maneira de estar no mundo.


É justamente essa dependência do outro que participa de nossa constituição como sujeitos.


As experiências também nos constituem


Não aprendemos apenas pelas palavras.


Aprendemos pelas experiências que nos são oferecidas — e também por aquelas que nos faltam.


Cada criança cresce em um ambiente singular.


Há famílias que estimulam a autonomia desde cedo, incentivando a curiosidade, o brincar e a descoberta. Outras procuram proteger das frustrações, antecipando necessidades e oferecendo respostas antes mesmo que a criança possa formulá-las.


Há crianças que crescem cercadas de irmãos, primos e outras pessoas; outras convivem principalmente com adultos. Algumas encontram maior liberdade para explorar, errar e tentar novamente; outras crescem em ambientes nos quais o cuidado e a proteção ocupam um lugar predominante.


Também as transformações de cada época participam dessas experiências. Hoje, a tecnologia está presente muito cedo na vida das crianças e introduz novas formas de brincar, aprender, esperar e se relacionar.


Nada disso, isoladamente, determina quem uma criança irá se tornar.


Mas nenhuma dessas experiências é neutra.


Elas participam da construção da maneira como cada um passa a se relacionar consigo, com os outros e com o mundo.


A mesma experiência nunca produz a mesma história


Seria um equívoco imaginar que essas experiências determinam, por si só, quem alguém será.


Basta observar irmãos criados na mesma casa.


Compartilharam os mesmos pais, muitas vezes frequentaram as mesmas escolas e viveram acontecimentos semelhantes.


Ainda assim, constroem histórias diferentes.


Isso acontece porque nenhuma experiência é vivida exatamente da mesma maneira por duas pessoas.


Cada sujeito é atravessado pelo que vive de uma maneira singular.


O que para um pode ser vivido como incentivo, para outro pode ser experimentado como exigência.


Aquilo que um recorda com carinho, outro talvez quase não se lembre.


Não é apenas o que acontece que nos constitui.


Importa também a maneira singular como cada um vive, interpreta e constrói sentidos a partir de suas experiências — muitas vezes sem perceber como esses sentidos continuam participando de sua história.


As palavras também permanecem


Algumas experiências passam.


Outras permanecem através das palavras.


Há frases que desaparecem logo depois de serem ditas.


Outras continuam presentes muitos anos depois.


“Tenho orgulho de você.”


“Esse é meu filhão.”


“Você consegue.”


“Isso não é para você.”


“Você nunca faz nada direito.”


Não é apenas o conteúdo dessas frases que lhes confere força.


Importa também quem as disse, o lugar que essa pessoa ocupava em nossa história e a maneira singular como essas palavras foram escutadas.


Uma mesma frase pode acolher, incentivar, exigir ou limitar — e nem sempre sabemos por que determinadas palavras permanecem enquanto tantas outras são esquecidas.


Algumas acabam se tornando uma espécie de voz interna, acompanhando silenciosamente a maneira como passamos a olhar para nós mesmos e a nos posicionar diante dos outros.


A vida adulta não começa do zero


Os anos passam.


Mudam as pessoas.


Mudam os lugares.


Mas nossa história continua presente.


Às vezes, nos surpreendemos repetindo uma expressão que ouvíamos na infância.


Outras vezes, reagimos como jurávamos que nunca reagiríamos.


Também podemos buscar a aprovação de determinadas pessoas sem compreender exatamente por quê, ou nos sentir profundamente afetados por uma crítica aparentemente simples.


Em outros momentos, percebemos que certas situações parecem se repetir: mudam as pessoas e os contextos, mas algo na forma como nos relacionamos, escolhemos ou nos posicionamos parece retornar.


Nossa história não desaparece quando nos tornamos adultos.


Ela continua participando da forma como amamos, trabalhamos, escolhemos, enfrentamos conflitos e construímos nossos vínculos.


O lugar da Psicanálise


A Psicanálise não procura apagar o passado, nem substituir uma história por outra.


Também não busca identificar culpados para o sofrimento.


Na análise, cada sujeito pode falar sobre sua história e escutar de outra maneira aquilo que viveu, as palavras que o marcaram e os sentidos que foi construindo ao longo da vida.


Ao colocar essas experiências em palavras, algo que parecia evidente pode começar a ser interrogado. Certas repetições podem ser percebidas e algumas formas de se relacionar, escolher ou se posicionar podem ganhar novos sentidos.

Não porque o passado possa ser mudado.


Mas porque aquilo que, durante muito tempo, foi vivido como uma verdade absoluta sobre si mesmo pode voltar a ser interrogado.


Considerações finais


Talvez nunca possamos responder completamente à pergunta sobre quem seríamos se tivéssemos vivido outras experiências.


Mas podemos fazer outra pergunta.


Talvez mais importante.


O que da minha história continua vivendo em mim sem que eu tenha percebido?


É dessa pergunta que, muitas vezes, nasce o desejo de compreender a própria história.


E é justamente aí que um percurso analítico pode começar.

Claudia Cecilia Daniel
Psicóloga | Psicanalista

CRP 06/43488-4

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Atendimento presencial em São José dos Campos e online

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​Este site tem caráter informativo e não substitui o atendimento psicológico individualizado.​

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